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O Agente Secreto

  Há diretores que carregam suas cidades como quem carrega um país inteiro no bolso. Kleber Mendonça Filho carrega Recife como quem carrega um afeto. Não se trata apenas de cenário, geografia ou memória: Recife, em sua obra, é sempre órgão vital, um prolongamento do corpo dos personagens, um território que respira junto com eles. Em O Agente Secreto, esse gesto se radicaliza; a cidade emerge como estado de espírito, lugar onde o trauma coletivo histórico, a polícia corrupta, a cultura e a pulsação íntima se cruzam num mesmo sopro. Kleber constrói o filme com uma ternura rara, guiado pela entrega humana dos atores, que parecem existir antes mesmo do roteiro. A trama não tem pressa, e por isso se impõe como antídoto contra a urgência ansiosa dos nossos dias e obras recentes. Cada diálogo respira; cada silêncio se dilata. É um cinema que recupera a delicadeza do tempo: do tempo de escutar, de olhar, de sentir o que vibra entre as palavras. O filme retoma aquilo que tantas propostas co...
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Ficções

  Há peças que não se contentam simplesmente em narrar uma história: elas se propõem a desnudar a própria condição de narrar.  Ficções , estrelada por Vera Holtz e dirigida por Rodrigo Portella, é uma dessas experiências raras, capazes de tensionar crenças e identidades, através da mais antiga e perseverante tecnologia humana de sobrevivência: a teatralidade. A peça, inspirada mas não subordinada a Y uval Harari,  recusa a forma convencional da adaptação e aposta num exercício de imaginação cênica que interroga a humanidade a partir daquilo que talvez seja sua maior invenção: a nossa ampla capacidade de criar mundos que não existem. Em cena, Vera surge em um estado quase metamórfico. De um despojamento radical brotam múltiplas vozes e corpos: mulher, asno, imperador, fóssil, planta. Como se cada papel fosse não uma personagem, mas fragmento do imaginário coletivo. É nesse trânsito que a atriz encontra sua força: ao invés de reafirmar identidades, ela as dissolve. Um gesto...

Melhor Enlouquecer na Natureza, de Miro Remo

  Desde pequeno, eventos culturais e mostras artísticas sempre me animaram. Lembro com certo saudosismo e muito carinho do meu primeiro MIRADA - Festival Ibero-Americano de Artes Cênicas , que me mostrou quão grande e agregadora pode ser a arte. Um evento que, na minha infância, era praticamente um oásis de diversidade, em uma cidade de Santos cada vez mais conservadora e pacata. Atrizes, diretores e espectadores de toda América Latina se reuniam em Santos para expor seus trabalhos e discutir a arte na nossa região. Havia mesas e espetáculos em diversos idiomas (espanhol, inglês, português, etc), sobre os mais variados temas. E, para ser sincero, a maioria delas eu sequer entendia. Mas isso não importava. Na verdade, era justamente isso que mais me fascinava, porque desse lugar do não compreender eu percebia o quão pequenino eu era e quão pouco do mundo eu sabia. Eu não entendia porque não conhecia o idioma dos meus vizinhos, nem suas culturas, gostos e referências. Estava pres...

O Último Azul

  Em O Último Azul , de Gabriel Mascaro, o tempo já não é só o que escorre: é o que empurra. Num futuro próximo, e reconhecível, o Brasil oficializa seu desprezo: os velhos devem partir. São levados para colônias isoladas, longe da cidade, dos filhos, da vida que ajudaram a construir. A velhice, reduzida à falência, é tratada como entulho: um problema a ser recolhido pelo “carro cata-idosos”. Mas Tereza, nossa protagonista, aos 77 anos, recusa esse destino sem nome. É um corpo que recusa ser lido como peso. Ela não aceita ser levada. Ela embarca. Seu corpo se torna navegação, ela não observa o rio: ela entra. E o que poderia ser fuga vira travessia. Um corpo em movimento que não pede justificativas: existir já é argumento suficiente. Filmado em Manacapuru, Novo Airão e Manaus o Último azul não coloca o rio como paisagem, mas como veia viva . A Amazônia ,tão frequentemente moldura, não é cenário: é cúmplice. A floresta, que nunca exigiu produtividade para abrigar uma ...

Cine arte posto 4

Não vivi a época de ouro dos cinemas de rua em Santos. Ouvi, maravilhada, histórias de salas com oitocentos lugares, sessões lotadas, filas que dobravam a esquina e bilheterias a céu aberto. Mas para quem, como eu, nasceu nos anos 1990, cinema de rua se tornou exceção, não regra. Inaugurado em 1991 no calçadão da praia, o cinema nasceu da iniciativa do crítico santista Rubens Ewald Filho, em parceria com outros intelectuais da cidade, que apresentaram à então prefeita Telma de Souza a proposta de criar um espaço voltado ao cinema de arte, aquele que não encontra espaço nas grandes redes comerciais. O primeiro filme exibido ali foi o alemão Asas do Desejo (1988), de Wim Wenders, Anjos entre o céu e a cidade, entre o tempo suspenso e o agora. Uma estreia que não anunciou apenas um cinema, mas uma forma de ver: com escuta, com cuidado e com silêncio. Hoje, a sala leva o nome de Rubens em justa homenagem à sua importância para a crítica cinematográfica nacional e para a cultura de Sant...

Super-homem, a Canção — a mais poética crítica do cinema

E m 1979 o Brasil respirava sob o peso da farda, e a noite, cúmplice silenciosa, abrigava os sonhos que ainda não podiam ser ditos. Caetano Veloso voltava do cinema, fascinado com Superman , de Richard Donner o herói que, arrebatado de amor, faz a Terra girar ao contrário para enganar o tempo e salvar a mulher amada. Gilberto Gil o ouviu narrar, atento, como quem escuta um mito nascer entre o real e o delírio. Não viu o filme, naquela dia mas nos entregou uma obra prima. Dessa imagem contada em voz baixa, Gil fez nascer uma das críticas cinematográficas mais belas e inesperadas já escritas em forma de canção. Em Super-homem, a Canção , ele não veste a capa do mito; ele a retira. Despido, devolve o herói norte- americano à carne e transforma o aço em pele, o voo em confissão. A cena grandiosa do cinema se transforma em movimento interno: o planeta gira por dentro, não por fora. O herói que move a Terra no filme encontra, na música, o homem que move o próprio eixo. Gilberto Gil toca...