Pular para o conteúdo principal

Sobre #013


O blog Santíssima Arte nasce do encontro de dois amigos santistas (de cidade, time e coração): Thayana e Gustavo, que sempre encontraram na arte um lugar de curiosidade, diálogo, emancipação e afeto. Aqui, escrevemos sobre aquilo que vemos e sentimos: filmes, exposições, livros, música e tudo o que nos toca. Não buscamos consenso, seguir métodos ou representar a "verdade absoluta", muito pelo contrário, cada texto é apenas um ponto de vista individual atravessado por vivências, gostos e manias.

E, para sermos sinceros: nossa opinião não vale nada. Mas, ainda assim, nos diverte, nos move e talvez provoque alguma coisa por aí. Se provocar, já valeu! :) 

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

O Agente Secreto

  Há diretores que carregam suas cidades como quem carrega um país inteiro no bolso. Kleber Mendonça Filho carrega Recife como quem carrega um afeto. Não se trata apenas de cenário, geografia ou memória: Recife, em sua obra, é sempre órgão vital, um prolongamento do corpo dos personagens, um território que respira junto com eles. Em O Agente Secreto, esse gesto se radicaliza; a cidade emerge como estado de espírito, lugar onde o trauma coletivo histórico, a polícia corrupta, a cultura e a pulsação íntima se cruzam num mesmo sopro. Kleber constrói o filme com uma ternura rara, guiado pela entrega humana dos atores, que parecem existir antes mesmo do roteiro. A trama não tem pressa, e por isso se impõe como antídoto contra a urgência ansiosa dos nossos dias e obras recentes. Cada diálogo respira; cada silêncio se dilata. É um cinema que recupera a delicadeza do tempo: do tempo de escutar, de olhar, de sentir o que vibra entre as palavras. O filme retoma aquilo que tantas propostas co...

Super-homem, a Canção — a mais poética crítica do cinema

E m 1979 o Brasil respirava sob o peso da farda, e a noite, cúmplice silenciosa, abrigava os sonhos que ainda não podiam ser ditos. Caetano Veloso voltava do cinema, fascinado com Superman , de Richard Donner o herói que, arrebatado de amor, faz a Terra girar ao contrário para enganar o tempo e salvar a mulher amada. Gilberto Gil o ouviu narrar, atento, como quem escuta um mito nascer entre o real e o delírio. Não viu o filme, naquela dia mas nos entregou uma obra prima. Dessa imagem contada em voz baixa, Gil fez nascer uma das críticas cinematográficas mais belas e inesperadas já escritas em forma de canção. Em Super-homem, a Canção , ele não veste a capa do mito; ele a retira. Despido, devolve o herói norte- americano à carne e transforma o aço em pele, o voo em confissão. A cena grandiosa do cinema se transforma em movimento interno: o planeta gira por dentro, não por fora. O herói que move a Terra no filme encontra, na música, o homem que move o próprio eixo. Gilberto Gil toca...

Ficções

  Há peças que não se contentam simplesmente em narrar uma história: elas se propõem a desnudar a própria condição de narrar.  Ficções , estrelada por Vera Holtz e dirigida por Rodrigo Portella, é uma dessas experiências raras, capazes de tensionar crenças e identidades, através da mais antiga e perseverante tecnologia humana de sobrevivência: a teatralidade. A peça, inspirada mas não subordinada a Y uval Harari,  recusa a forma convencional da adaptação e aposta num exercício de imaginação cênica que interroga a humanidade a partir daquilo que talvez seja sua maior invenção: a nossa ampla capacidade de criar mundos que não existem. Em cena, Vera surge em um estado quase metamórfico. De um despojamento radical brotam múltiplas vozes e corpos: mulher, asno, imperador, fóssil, planta. Como se cada papel fosse não uma personagem, mas fragmento do imaginário coletivo. É nesse trânsito que a atriz encontra sua força: ao invés de reafirmar identidades, ela as dissolve. Um gesto...