Há peças que não se contentam simplesmente em narrar uma história: elas se propõem a desnudar a própria condição de narrar. Ficções, estrelada por Vera Holtz e dirigida por Rodrigo Portella, é uma dessas experiências raras, capazes de tensionar crenças e identidades, através da mais antiga e perseverante tecnologia humana de sobrevivência: a teatralidade.
A peça, inspirada mas não subordinada a Yuval Harari, recusa a forma convencional da adaptação e aposta num exercício de imaginação cênica que interroga a humanidade a partir daquilo que talvez seja sua maior invenção: a nossa ampla capacidade de criar mundos que não existem.
Em cena, Vera surge em um estado quase metamórfico. De um despojamento radical brotam múltiplas vozes e corpos: mulher, asno, imperador, fóssil, planta. Como se cada papel fosse não uma personagem, mas fragmento do imaginário coletivo. É nesse trânsito que a atriz encontra sua força: ao invés de reafirmar identidades, ela as dissolve. Um gesto extremamente político em tempos de identidades rígidas e discursos retrógrados.
A cenografia minimalista e os enquadramentos visuais de ressonância neoconcretista criam uma moldura que nunca é estável. A moldura que insiste em cair em cena não é mero truque cênico, mas a materialização de uma simples, mas profunda questão: qual a distância entre arte e vida, entre discurso e prática, entre história e mito? O espetáculo não oferece nenhuma resposta para tais perguntas, mas sutilmente nos coloca diante das nossas mais desconfortáveis e fundamentadas ficções: o dinheiro, a nação, a religião, o progresso.
Do ponto de vista estético, Ficções flerta com a performance e a instalação, arriscando-se num entre-lugar de monólogo, ensaio e duo musical, a partir da bela presença do músico Federico Puppi. Uma presença que não se limita a ilustrar a cena, mas cria um corpo sonoro que dialoga e por vezes desestabiliza a narrativa. Esse caráter híbrido pode desconcertar espectadores habituados a linearidade das grandes obras teatrais, mas é justamente nesse desconforto que o espetáculo encontra sua verdade, sua coragem e um lugar especial na memória do público, convocado não como plateia submissa, mas como sujeito ativo. quase cúmplice da obra e história que é contada.
É admirável o talento e capacidade de Portella em dar uma cara genuinamente latina a obra, muitas vezes questionada, de Harari. De forma crítica, mas sem perder o bom humor, o espetáculo reconta a história da humanidade através de um mosaico contraditório, tortuoso e repleto de exclusões e violências, formulando assim uma crítica sutil, mas incisiva, ao capitalismo e à precariedade social que molda nosso cotidiano.
A peça ultrapassa qualquer discussão sobre fidelidade ou qualidade do livro Sapiens., livro no qual é inspirada. O espectador deixa o teatro deslumbrado pelo talento de Vera e tomado por desconfortos e questões: quais novas ficções precisaremos criar para sobrevive? Quando a ficção é afeto e quando é usada como mecanismo de poder?
Ficções manteve viva a nossa, teimosa e talvez ingênua, crença no papel emancipatório da arte como resistência a capitalização que atualmente é feita de toda e qualquer ação humana. Não houve algoritmos que tirasse a atenção do público do momento presente, tampouco storys ou flashs invasivos, apenas aplausos e uma fé coletiva que somos capazes de reescrever cotidianamente nossa história.
Avaliação: 🍞🍞🍞🍞 (4 médias)
Gustavo Couceiro
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