Em 1979 o Brasil respirava sob o peso da farda, e a noite, cúmplice silenciosa, abrigava os sonhos que ainda não podiam ser ditos. Caetano Veloso voltava do cinema, fascinado com Superman, de Richard Donner o herói que, arrebatado de amor, faz a Terra girar ao contrário para enganar o tempo e salvar a mulher amada. Gilberto Gil o ouviu narrar, atento, como quem escuta um mito nascer entre o real e o delírio. Não viu o filme, naquela dia mas nos entregou uma obra prima.
Dessa imagem contada em voz baixa, Gil fez nascer uma das críticas cinematográficas mais belas e inesperadas já escritas em forma de canção. Em Super-homem, a Canção, ele não veste a capa do mito; ele a retira. Despido, devolve o herói norte-americano à carne e transforma o aço em pele, o voo em confissão. A cena grandiosa do cinema se transforma em movimento interno: o planeta gira por dentro, não por fora. O herói que move a Terra no filme encontra, na música, o homem que move o próprio eixo.
Gilberto Gil toca o coração do mito masculino e o desfaz com delicadeza. “Um dia vivi a ilusão de que ser homem bastaria” verso que não acusa, mas revela. A ilusão de força, de controle, de invulnerabilidade se dissolve, e em seu lugar surge o reconhecimento da fragilidade como forma de poder.
O que no cinema era espetáculo, em Gil é introspecção. O que era poder, vira entrega. Em plena ditadura, quando a masculinidade era farda e o silêncio um gesto de sobrevivência, Gil ousou cantar o oposto: a vulnerabilidade como coragem, o afeto como resistência, o amor como revolução.
Assim, Super-homem, a Canção não é apenas uma crítica sobre um filme, é o instante em que a música olha para a tela e a devolve ao coração humano. O que buscamos aqui e aprendemos com o mestre Gilberto Gil é que toda crítica, seja ao herói ou à história, deve ser feita considerando o que nos toca enquanto humanos, o que suspende nossas crenças, o que faz nosso mundo girar.
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