Pular para o conteúdo principal

O Agente Secreto

 




Há diretores que carregam suas cidades como quem carrega um país inteiro no bolso. Kleber Mendonça Filho carrega Recife como quem carrega um afeto. Não se trata apenas de cenário, geografia ou memória: Recife, em sua obra, é sempre órgão vital, um prolongamento do corpo dos personagens, um território que respira junto com eles. Em O Agente Secreto, esse gesto se radicaliza; a cidade emerge como estado de espírito, lugar onde o trauma coletivo histórico, a polícia corrupta, a cultura e a pulsação íntima se cruzam num mesmo sopro.

Kleber constrói o filme com uma ternura rara, guiado pela entrega humana dos atores, que parecem existir antes mesmo do roteiro. A trama não tem pressa, e por isso se impõe como antídoto contra a urgência ansiosa dos nossos dias e obras recentes. Cada diálogo respira; cada silêncio se dilata. É um cinema que recupera a delicadeza do tempo: do tempo de escutar, de olhar, de sentir o que vibra entre as palavras. O filme retoma aquilo que tantas propostas contemporâneas perderam: a ideia de que um rosto filmado por segundos a mais pode dizer mais do que qualquer explicação.

Nesse contexto, a ditadura militar aparece como um permanente e angustiante plano de fundo. Sem um foco em uma reconstituição rígida, o regime é uma presença difusa no ambiente que atravessa todos os ambientes e personagens. Assim, Kleber não tem necessidade de apontar, gritar, didatizar o político; ele está diluído no ar, contaminando cada gesto, cada parede, cada música. É um elemento sensorial, percebido mais pela pele do que pela razão. Kleber sabe que, no Brasil, o político nunca foi só discurso: é ambiente, é memória rachada, é corpo que carrega (ou não) algo que não pediu.

O Agente Secreto é um filme profundamente brasileiro, mas sem cair no chavão ou folclore fácil. A brasilidade da obra é imanente, orgânica, um idioma sensorial feito de rostos, vozes, cinemas, rádios, medos, rezas, e ruídos que ecoam de dentro e de fora da tela. Nessa junção entra uma das marcas mais bonitas de Kleber: o realismo fantástico. Aqui, ele não aparece como um mero adorno, mas como ruptura profunda na realidade, através da fábula da “Perna Cabeluda”. Ao inserir história da Perna, se rompe o tecido do real produzido até então no filme e nos lembra que a história e a memória brasileira (e do filme) é sempre repleta de afeto, culpa e um tantinho de resenha e misticismo.

O trabalho dos atores na obra é magistral. Impossível não evidenciar a enorme atuação de Wagner Moura, num filme que parece ter sido feito justamente pra ele. Wagner nos brinda com uma atuação baixa, quase subterrânea, mas profundamente sólida e intensa em um personagem que cresce justamente. Enquanto Recife vibra intensamente, Wagner brilha de forma silenciosa em um personagem reservado e introspectivo, onde se sobressai nas feições, linguagem corporal e olhares capazes de dizer mais que muitas palavras.

Ao seu lado, destaca-se também Tânia Maria, como Dona Sebastiana, a grande alma luminosa do filme. Sua espiritualidade é leve, cheia de humor natural, e sua presença transforma cada cena em território de afeto. Sebastiana encarna aquilo que há de mais bonito na cultura do cinema brasileiro: a resistência cotidiana, a ternura como gesto político, a capacidade de existir entre a dor e o riso sem explicação. Ela nunca vira símbolo ou mera caricatura, sua personagem é pura autenticidade através da personificação de quem carrega uma vida inteira nos olhos.

A fotografia e o jogo de câmera são, talvez, a espinha dorsal emocional da obra. A decupagem de Kleber é um estado de consciência: movimentos suaves e fluidos, quase flutuantes, que participam do espaço sem dominá-lo. Os movimentos de câmera propostos pelo diretor reforçam um olhar participativo com a história, onde a câmera não parece filmar, mas sim lembrar da história que está contando. Esse “jogo de lugares” que o diretor propõe com a câmera é magistral, ela parece um elemento independente que transita entre um olhar objetivo e um perambular sem pressa perante a ação. Acredito que a cena que melhor exemplifica essa leitura é a cena de tiroteio entre os personagens de Kaiony Venâncio e Gabriel Leone. Ao mesmo tempo que há uma total precisão coreografica, parece que nós nos tornamos responsáveis pela câmera, a fazendo flutuar por todo ambiente e reagir a cada novo som e ação que surge na cena: o ambiente assume prioridade perante a ação. Assim, a câmera deixa temporariamente o lugar de controle e registro e age como mais um olhar humano, mais uma testemunha do ambiente.

Caminhando para o (polêmico) final, Kleber introduz certos recortes temporais, a partir da figura das jovens jornalistas que trabalham no caso que permeia a história. Tal ação pode parecer deslocada a primeira vista, mas é justamente a partir delas que escancara um termo e conceito chave para o filme: a memória. Creio que tal escolha tem como grande objetivo tornar um tanto mais didática a história e através da inserção é escancarada a lógica do diretor para a obra, que rejeita a lógica da reconstrução histórica tradicional. O que vemos é uma memória reencenada, uma lembrança afetiva cheia de desvios, ruídos e lacunas, assim como a memória e a história brasileira quando ligada à violência de Estado. As cenas do presente têm luz dura, precisão quase documental, e justamente por isso funcionam como contraponto ao passado sensorial. A foto em preto e branco que revela o destino do protagonista é mais do que solução narrativa: é gesto político. Uma prova de que, no fim, até os corpos e histórias mais pulsantes podem ser reduzidos a arquivo, a silêncio, a esquecimento.

Quando o filho, que sequer se lembra do pai, comenta que o local de encontro com a jornalista antes era um cinema, todo o filme se dobra sobre si. De repente, Kleber revela aquilo que o guia: o cinema como guardião de uma memória que insiste em ser apagada e as pessoas como força que insiste em sobreviver ao esquecimento.

O Agente Secreto é, acima de tudo, isso: um filme sobre memória, sobre a delicadeza do que sobrevive. Um gesto de amor pelo Brasil, por Recife, por seus fantasmas, por suas pessoas, por sua história. Um filme que desacelera para nos lembrar que a política também mora no silêncio, que o passado pulsa mesmo quando não o olhamos, e que o cinema, esse nosso velho amigo e companheiro, talvez seja o último lugar onde ainda podemos guardar o que não queremos perder

Avaliação: 🍞🍞🍞🍞 (4 carás)

Gustavo Couceiro

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Super-homem, a Canção — a mais poética crítica do cinema

E m 1979 o Brasil respirava sob o peso da farda, e a noite, cúmplice silenciosa, abrigava os sonhos que ainda não podiam ser ditos. Caetano Veloso voltava do cinema, fascinado com Superman , de Richard Donner o herói que, arrebatado de amor, faz a Terra girar ao contrário para enganar o tempo e salvar a mulher amada. Gilberto Gil o ouviu narrar, atento, como quem escuta um mito nascer entre o real e o delírio. Não viu o filme, naquela dia mas nos entregou uma obra prima. Dessa imagem contada em voz baixa, Gil fez nascer uma das críticas cinematográficas mais belas e inesperadas já escritas em forma de canção. Em Super-homem, a Canção , ele não veste a capa do mito; ele a retira. Despido, devolve o herói norte- americano à carne e transforma o aço em pele, o voo em confissão. A cena grandiosa do cinema se transforma em movimento interno: o planeta gira por dentro, não por fora. O herói que move a Terra no filme encontra, na música, o homem que move o próprio eixo. Gilberto Gil toca...

Ficções

  Há peças que não se contentam simplesmente em narrar uma história: elas se propõem a desnudar a própria condição de narrar.  Ficções , estrelada por Vera Holtz e dirigida por Rodrigo Portella, é uma dessas experiências raras, capazes de tensionar crenças e identidades, através da mais antiga e perseverante tecnologia humana de sobrevivência: a teatralidade. A peça, inspirada mas não subordinada a Y uval Harari,  recusa a forma convencional da adaptação e aposta num exercício de imaginação cênica que interroga a humanidade a partir daquilo que talvez seja sua maior invenção: a nossa ampla capacidade de criar mundos que não existem. Em cena, Vera surge em um estado quase metamórfico. De um despojamento radical brotam múltiplas vozes e corpos: mulher, asno, imperador, fóssil, planta. Como se cada papel fosse não uma personagem, mas fragmento do imaginário coletivo. É nesse trânsito que a atriz encontra sua força: ao invés de reafirmar identidades, ela as dissolve. Um gesto...