Desde pequeno, eventos culturais e mostras artísticas sempre me animaram. Lembro com certo saudosismo e muito carinho do meu primeiro MIRADA - Festival Ibero-Americano de Artes Cênicas, que me mostrou quão grande e agregadora pode ser a arte. Um evento que, na minha infância, era praticamente um oásis de diversidade, em uma cidade de Santos cada vez mais conservadora e pacata.
Atrizes, diretores e espectadores de toda América Latina se reuniam em Santos para expor seus trabalhos e discutir a arte na nossa região. Havia mesas e espetáculos em diversos idiomas (espanhol, inglês, português, etc), sobre os mais variados temas. E, para ser sincero, a maioria delas eu sequer entendia. Mas isso não importava. Na verdade, era justamente isso que mais me fascinava, porque desse lugar do não compreender eu percebia o quão pequenino eu era e quão pouco do mundo eu sabia.
Eu não entendia porque não conhecia o idioma dos meus vizinhos, nem suas culturas, gostos e referências. Estava preso na minha bolha paulista e caiçara. Foi através do MIRADA que aprendi sobre história, geografia e sobre mim mesmo. Aprendi o poder transformador e educacional da arte, aprendi a falar portunhol, a ver Sessão Cone Sul no Canal Brasil e a criar uma expectativa danada em todo festival que vou. Assim, mesmo sem entender muitas das peças que assisti, acredito que entendi o essencial: a arte está para transformar e existe para ir além do nosso olhar cotidiano.
E foi com esse aprendizado e a mesma expectativa criada desde o primeiro MIRADA, que fui esse ano para a Mostra de Cinema de São Paulo: confiante em viver algo novo e inimaginável, apesar da grande lista de filmes já premiados e elogiados. Não nego que na maioria das vezes essa expectativa me deixa na mão e acabo voltando pra casa meio desapontado, mas não consigo me livrar dela, porque as poucas vezes que ela foi atendida compensaram de longe todas decepções.
Nesse ano, porém, a Mostra não apenas atendeu tal expectativa, como fez isso muito rapidamente. Logo no primeiro filme que assisti e, de quem eu pouco esperava, vivi minha maior surpresa do ano: “Melhor Enlouquecer na Natureza” (Better Go Mad in the Wild), de Miro Remo. O diretor eslovaco provoca uma rara experiência, capaz de tensionar nossa ideia de liberdade e pertencimento através do olhar do cinema.
Miro mergulha num profundo exercício de imaginação documentária que interroga a condição humana por meio de uma antiga, e normalmente fracassada, busca de felicidade: a escolha de retirar-se do mundo para se reinserir em outro.
Em cena, o real e o simbólico se entrelaçam em co-autoria: os irmãos gêmeos Frantisek Klisik e Ondrej Klisik vivem na floresta de Sumava na Tchéquia, distantes da civilização, compartilhando o corpo cotidiano da terra, do animal, da rotina. Não há mais personagens na trama, tampouco construções heroicas clássicas, apenas os dois através de suas vidas porosas: um irmão que deseja o voo, outro que deseja o abrigo; o aniversário eterno da tarde, o riso e o embate, o pasto e o espelho.
A fotografia esplendorosa de Dušan Husár e o próprio Remo moldam a paisagem em que a natureza deixa de ser apenas cenário para se tornar protagonista. Os enquadramentos longos, a atenção ao ruído dos animais, o espaço aberto onde o humano respira diferente, tudo isso serve para que o filme celebre o silêncio com igual intensidade da voz. Ao colocar a moldura da câmera no meio da floresta, ele nos pergunta: qual a distância entre o homem e aquilo que ele habita?
Trata-se de uma obra artística com um roteiro fluído e verdadeiro, ainda que não linear, e carrega uma brutal honestidade: irmãos que e lavam o chão, que alimentam os animais, que bebem, que brigam, que são incoerentes, que filosofam sobre o amor, a felicidade e a liberdade. Há humor, há conflito, há poesia: quando a vaca narra a cena, quando o espelho captura o reflexo duplo, quando o universo se contrai no gesto mínimo. O filme não oferece respostas (e nem precisa), mas abre um espaço para que o espectador sinta a fissura entre o mundano e o mítico, no microscópio particular dos irmãos Klisik.
E dessa fissura emerge uma contundente crítica social: à sociedade ocidental e ao sistema, por ela criado, que exige desempenho, produtividade, visibilidade - à vida e o corpo que se vende. Em antagonismo, surgem dois seres que se colocaram à margem, em busca de uma suposta verdade genuína e primitiva, num grito de emancipação e não compactuação com o que foi criado.
Esse grito dado pelos irmãos ecoa muito além da floresta de Sumava, ele reverbera nas margens do Rio São Francisco, nas quebradas de Cali, nos portos de Santos e nas milhares de aldeias que resistem pelo nosso continente. É um grito que nos leva aos nossos antepassados, aos povos originários e nos relembra que a resistência também pode se dar no silêncio das florestas.
A obra de Miro, apesar de distante esteticamente e geograficamente, me levou aos escritos de Malcom Ferdinand, Krenak, Alberto Costa, Hanna Limulja, Kaka Werá e tantos outros(as) pensadores(as). Na nossa realidade latina, onde a natureza encontra a memória colonial e a marginalização, o filme ecoa como possibilidade: sobreviver diferente, criar soberania estética, viver em comunhão com a natureza é possível! O viver bem pode ser real e nós latinos sabemos disso mais que ninguém.
Ao final, Melhor Enlouquecer na Natureza nos entrega uma excelência técnica merecedora de prêmios, questionamentos sociais e psicológicos profundos e um convite particular: aceitar que a loucura pode ser forma de lucidez, e que o delírio sob os pinheiros tchecos pode revelar mais sobre nós mesmos do que a normalidade barulhenta das grandes cidades.
Nota: 4 carás
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