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O Último Azul

 



Em O Último Azul, de Gabriel Mascaro, o tempo já não é só o que escorre: é o que empurra.

Num futuro próximo, e reconhecível, o Brasil oficializa seu desprezo: os velhos devem partir. São levados para colônias isoladas, longe da cidade, dos filhos, da vida que ajudaram a construir. A velhice, reduzida à falência, é tratada como entulho: um problema a ser recolhido pelo “carro cata-idosos”.

Mas Tereza, nossa protagonista, aos 77 anos, recusa esse destino sem nome. É um corpo que recusa ser lido como peso. Ela não aceita ser levada. Ela embarca.


Seu corpo se torna navegação, ela não observa o rio: ela entra.

E o que poderia ser fuga vira travessia. Um corpo em movimento que não pede justificativas: existir já é argumento suficiente.

Filmado em Manacapuru, Novo Airão e Manaus o Último azul não coloca o rio como paisagem, mas como veia viva. A Amazônia ,tão frequentemente moldura, não é cenário: é cúmplice. A floresta, que nunca exigiu produtividade para abrigar uma árvore, agora acolhe com tom de um realismo mágico, o que a cidade empurrou.


Tereza, então, desaprende o medo. Segue,
como nos versos de Mário Quintana no seu poema Seiscentos e sessenta e seis:
“...jogando pelo caminho
a casca dourada e inútil das horas.”

Para acompanhá-la nessa jornada, surge Roberta: uma missionária silenciosa em viagem, que, ao contrário de Tereza, comprou sua própria liberdade. Parte só, com a bagagem de quem já enfrentou a institucionalização e se negou a permanecer ali. Não aponta caminhos, apenas compartilha o chão.

As duas se encontram no que escapa à lógica da função, da utilidade, da pressa: o que acontece entre elas é o contrário do esquecimento. É corpo que ainda pulsa, mesmo quando o mundo tenta calar. Roberta é porto e é rio.

Apesar de o filme não aprofundar todas as camadas da exclusão institucional — especialmente a experiência nas colônias — abre espaços onde as perguntas ecoam, com o mesmo cuidado lento do caracol, que avança carregando nas costas o medo e a possibilidade do que se revela. O Último Azul não grita, mas tensiona sem pressa.

Sua estreia na rodoviária de Manacapuru não é acaso: é retorno. É arte devolvida ao território que a inspirou. Ali, onde tudo começa, o filme se entrega de volta às mãos que o fizeram possível.

Se o Brasil envelhece — como em Santos, onde quase um quarto da população já tem mais de 60 anos — então O Último Azul não é apenas um filme: é um chamado.

Iniciativas como o Envelhecer nos Territórios buscam escutar o nome de cada vida que resiste ao tempo e criar políticas que nos recordem que envelhecer não é desaparecer, mas sim continuar habitando o tempo com outra densidade.
No fim, este é um filme sobre não aceitar a margem como exílio. Sobre a travessia como direito. Porque há margens que nos abrigam. E há margens que nos enterram.

Nota: carás

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