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Cine arte posto 4



Não vivi a época de ouro dos cinemas de rua em Santos. Ouvi, maravilhada, histórias de salas com oitocentos lugares, sessões lotadas, filas que dobravam a esquina e bilheterias a céu aberto. Mas para quem, como eu, nasceu nos anos 1990, cinema de rua se tornou exceção, não regra.

Inaugurado em 1991 no calçadão da praia, o cinema nasceu da iniciativa do crítico santista Rubens Ewald Filho, em parceria com outros intelectuais da cidade, que apresentaram à então prefeita Telma de Souza a proposta de criar um espaço voltado ao cinema de arte, aquele que não encontra espaço nas grandes redes comerciais.

O primeiro filme exibido ali foi o alemão Asas do Desejo (1988), de Wim Wenders, Anjos entre o céu e a cidade, entre o tempo suspenso e o agora. Uma estreia que não anunciou apenas um cinema, mas uma forma de ver: com escuta, com cuidado e com silêncio.

Hoje, a sala leva o nome de Rubens em justa homenagem à sua importância para a crítica cinematográfica nacional e para a cultura de Santos e segue funcionando com o apoio da Secretaria de Cultura (Secult), como um dos dois únicos cinemas de rua ainda ativos na cidade.

Com apenas 48 lugares, ar-condicionado, um filtro de água e um banheiro, o Cine Arte não ostenta grandiosidade em sua infraestrutura. A sala é baixa, as cadeiras são simples e a tela não busca rivalizar com os gigantes de shopping. Às vezes, é preciso ajustar o olhar, inclinando-se levemente, mas ali, nesse espaço contido, o cinema ganha fôlego. Respira mais devagar. Respira junto.

A programação, atenta e generosa, dá espaço para filmes autorais, independentes e produções nacionais relevantes.

O valor do ingresso é simbólico, garantindo o acesso de um público diverso. Ali chegam pessoas que talvez jamais tenham ouvido falar do diretor, que nunca cruzaram com um filme de Godard ou que acompanha cada passo do cinema nacional. Guiados pelo encontro inesperado, pelo ingresso que pesa leve no bolso, pela vontade pura de simplesmente estar ali: imersos, atentos, presentes.

O que acontece depois ao meu ver que é a verdadeira arte: uma história que encontra morada, um reflexo que se reconhece, o cinema que deixa de ser distante e se torna espelho. Porque a arte que preenche aquela sala não pertence a uma elite sensível; ela se oferece inteira e, muitas vezes, é recebida com a mesma inteireza por todos ali presentes.

Na Santos que eu imagino, o Cine Arte se desdobra em pequenos refúgios pela cidade, discretos como bancos de praça, íntimos como varandas, vivos como quem ainda se dispõe a escutar uma história até o fim. Porque, no fim, o que nos move não é o tamanho da sala ou da tela, mas o mundo que ela revela.


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